Sessão com a Bia

A prevalência da subjetividade

Por Bia Bressan

Convido você a desenhar para mim: pegue uma folha de papel (pode ser rascunho), lápis de cor ou giz de cera. Se tiver mais gente por perto, convide também! Desenhe isto que vou descrever: uma flor de cabo verde, miolo amarelo e pétalas vermelhas. Observe o resultado. Se pelo menos mais uma pessoa desenhou junto com você, compare os desenhos. São idênticas? Mesmo se ficaram muito parecidas, são na verdade bem diferentes. Mas por quê? Se vocês usaram o mesmo material e seguiram a mesma instrução? O que estes desenhos revelam?

Podemos usar as flores desenhadas como uma representação de nós pessoas. Enquanto indivíduos pertencentes à mesma espécie, todos temos a mesma estrutura (considerando, claro, o que convencionamos chamar de "normal"): cabeça, tronco e membros; órgãos internos e externos; funções vitais como respiração e circulação sanguínea; todos nós sentimos fome, sede, sono e assim por diante. Na representação, isto corresponde à flor de cabo verde, miolo amarelo e pétalas vermelhas. No entanto, mesmo tão parecidos nesta estrutura, quanta diferença: nas cores, formatos e tamanhos de pele, olhos, estatura, braços, pernas, narizes e bocas; no ritmo da respiração e na pressão arterial; no tempo de descanso que cada um necessita, no volume de água que mata a sede, na quantidade de comida que mata a fome. Da mesma maneira, podemos pensar na nossa estrutura mental e emocional: todos nós possuímos pensamentos, sentimentos, emoções, memória, sonhos, medos e desejos, que podem se combinar e se manifestar de infinitas formas diferentes. Sendo assim, as flores desenhadas revelam (escancaram!) a prevalência da subjetividade, ou seja: a singularidade do ser (indivíduo) e de ser (pessoa). Até podemos ser parecidos (como as flores no formato da velha margarida da infância, por exemplo), mas nunca seremos idênticos: observe o tamanho do desenho, onde ele se localiza na folha, a pressão do lápis sobre o papel, se tem preenchimento ou só contorno... São sutilezas que evidenciam as diferenças individuais; são expressões da subjetividade.

Se assim é, vamos pensar agora na adolescência e nos adolescentes. Podemos representar a primeira (adolescência) com a flor e sua estrutura (aspectos comuns) e os segundos (adolescentes) com os desenhos (aspectos subjetivos). Culturalmente, somos condicionados a perceber (em todos os âmbitos, não só em relação à adolescência) o que é comum, o que é "normal" (estrutura), deixando a subjetividade nas sombras. Procuramos perceber nas pessoas (e em nós mesmos/as) o que devemos ser, gostar, preferir, como devemos nos comportar, atitudes que devemos tomar, escolhas que devemos fazer... E assim, vamos perdendo a capacidade de perceber as sutilezas individuais. Algo que fere "mortalmente" um/a adolescente é compará-lo/a com outro/a pessoa, neste sentido do dever. Para alguém que está no auge do seu processo de subjetivação, isto soa como menosprezo, como desconsideração da sua real pessoa. Podemos agir de maneira diferente? Sem dúvida que sim! Como?

Olhando para além da visão, escutando para além da audição, sentindo para além do concreto. Muito difícil? Questão de treino e atenção. Expressões subjetivas acontecem o tempo todo: nas gírias e expressões verbais que a pessoa usa e passa a usar, nas músicas que gosta de ouvir, nos programas de entretenimento que gosta assistir, nos artistas, intelectuais ou celebridades com os/as quais se identifica, no estilo das roupas e sapatos que prefere vestir, nos acessórios para adornar o corpo (ou na ausência destes), nas opiniões e pontos de vista que coloca, nas necessidades e desejos que expressa... A fórmula: se você é (adolescente), pertence a (determinados grupos sociais), então tem que (ser e se comportar de determinadas maneiras) só pode servir como uma espécie de referência, não como prisão. Vamos sempre nos lembrar que, subjetivamente, algo fazemos com as referências que recebemos: as flores nunca serão idênticas.

Procure perceber a complexidade do ser humano (e de ser humano), de viver e conviver. Procure perceber sua própria complexidade de ser e de ver o mundo, as pessoas e sua história pessoal. É possível fazermos da sensibilidade a retina de nosso olhar e os tímpanos de nossa escuta, à procura das sutilezas individuais e das expressões da subjetividade.


O processo de orientação para escolha profissional de adolescentes e jovens

Por Bia Bressan

Acredito que sempre vou recordar daquela reunião de pais na escola que fiz estágio em São Carlos. Eu ainda era estudante de Pedagogia na UFSCar, tinha que cumprir com o estágio na habilitação que havia escolhido (Orientação Educacional, que, na história das reformulações do curso de Pedagogia, deixou de ser habilitação em nível de graduação e passou a ser especialização, em nível de pós-graduação). Um dos deveres do estágio nesta habilitação era realizar um programa de Orientação Profissional com estudantes do antigo 2 o grau (atualmente Ensino Médio), numa escola da rede pública e, também, numa escola da rede privada. A reunião a que me referi no início aconteceu na escola da rede privada. 

Nesta época eu estagiava junto a uma querida colega de turma (minha irmã acadêmica Barbara Sicardi, hoje professora da UFSCar de Sorocaba). Nesta escola realizamos o estágio com alunos e alunas do 3º ano. Os pais destes alunos e alunas solicitaram uma reunião conosco antes de iniciarmos o processo. Naquela época, grande parte destes pais e mães eram professores das universidades (USP e UFSCar). Como é fácil deduzir, muito preocupados com o encaminhamento dos filhos para o Ensino Superior. A preocupação que os assombrava era como seria possível e factível esta escolha por parte dos filhos: o que faríamos, afinal? Hoje eu percebo como esta curiosidade, misturada a uma enorme pitada de dúvida quanto à eficácia do trabalho de orientação profissional, é recorrente e presente entre as pessoas que não conhecem este trabalho. Vamos conhecê-lo mais de perto.

Conforme discutido no texto anterior, escolher uma profissão faz parte do processo de subjetivação, ou seja: é uma das tantas dimensões que constituem um sujeito. É por isso que o processo se inicia (e é o tempo todo atravessado) com técnicas de autoconhecimento - o objetivo maior deste trabalho é colaborar para que a pessoa faça sua escolha por si mesma, e que leve como "efeito colateral" desta intervenção a capacidade de escolher por si. Para tanto, meu papel enquanto profissional é oferecer "ferramentas" para que este encontro da pessoa com ela mesma aconteça - as técnicas e atividades. Destas é possível extrair dados e informações preciosas quanto à autoimagem, relacionamento com o próprio corpo, com a família, amigos, sonhos, medos e desejos próprios e alheios (que participam da escolha profissional), valores e princípios norteadores e suas fontes de aquisição, projeções futuras (que são da ordem da realização pessoal), dentre outros detalhes substanciais que levam a pessoa a conhecer a si mesma, a enxergar seus atravessamentos (pessoas, grupos e instituições que participam da sua construção enquanto sujeito) e suas atitudes diante do "que a vida faz com você" (como diria o filósofo Jean Paul Sartre).

Num segundo momento, entram as técnicas e atividades voltadas para a identificação de atividades e setores de atuação profissional: em que contexto esta pessoa se reconhece atuando como profissional? Sendo assim, o "resultado" mais provável do processo de orientação profissional é perceber com maior clareza a área de atuação com a qual a pessoa se identifica (se vê, se reconhece, sente que há eco dentro de si, ressoa). Dentro desta área, certamente a pessoa encontrará várias possibilidades: de início de formação, de continuidade desta formação, de aproximação e associação  de saberes e disciplinas, de campos de atuação e progressão na carreira... Nosso sistema educacional, em relação ao Ensino Médio, prima (ainda) pela educação propedêutica, esta que oferece uma quantidade imensa de conteúdos que deverão ser reproduzidos em provas seletivas. Neste processo de orientação profissional, quando a pessoa percebe a amplitude que esses saberes podem atingir, fica difícil esconder a sensação de estar surpreso/a e maravilhado/a com as possibilidades. Mais ainda com a constatação de que essas possibilidades são dinâmicas e cambiáveis. No contexto do mercado de trabalho atual e, também, na postura e atitude das gerações atuais, é muito mais real a alternância de postos e cenários de atuação profissional do que a permanência longeva num mesmo lugar, realizando repetidamente as mesmas tarefas. Daí a surpresa e admiração dos jovens e adolescentes, pois se reconhecem nesta realidade dinâmica.

Auxiliar a pessoa a ter clareza dos caminhos possíveis em determinado momento de sua vida é a função do/a orientador/a profissional de adolescentes e jovens. Esta lição aprendi muito cedo com Dulce Helena Penna Soares, uma das autoras de referência para este trabalho. Clareza na escolha percebida dentro de um espectro de possibilidades (área de interesse), o que permite traçar planos para a realização desta escolha, adequando os desejos aos custos e ao tempo. Pode acontecer da pessoa decidir dar início a sua formação por um caminho, se estruturar como profissional e, mais tarde, dar sequência a sua carreira seguindo o caminho realmente desejado.

Como foi o caso de uma adolescente que passou pelo processo de orientação comigo: seu desejo é a formação e atuação como diplomata; isto, no entanto, demanda custos que ultrapassam as possiblidades atuais; sendo assim, ela traçou um plano: decidiu fazer Pedagogia e começar a trabalhar para juntar fundos que poderão custear a realização do seu sonho. Perceba como ela está transitando dentro da mesma área de interesse (ciências humanas), construindo sua carreira de forma dinâmica e autêntica, fazendo escolhas por si mesma e conformando estas escolhas à realidade objetiva da família. Este é um clássico exemplo de "resultado" deste trabalho: aumentar a confiança e a segurança da pessoa em fazer escolhas de forma consciente, de acordo com suas possibilidades reais de execução e sentindo estas escolhas ressoarem no seu interior, se identificando e se reconhecendo no caminho traçado.


O que você quer ser quando crescer?

Adolescência e escolha profissional

Por Bia Bressan

Neste tempo histórico em que vivemos (que uns chamam de pós-modernidade, outros de modernidade líquida, outros ainda de contemporaneidade), um dos marcos importantes na vida de uma pessoa é, sem dúvida, sua inserção produtiva na vida social. Marco, este, localizado na fase que convencionamos chamar de adolescência (como foi visto no primeiro artigo). Vem daí, da inserção produtiva na vida social, a fatídica pergunta que, acredito eu, todos os pertencentes à classe média trabalhadora, médio-intelectualizada, desde muito criança sempre ouviu: o que você quer ser quando crescer?

Embutida nesta pergunta há outro questionamento: então nada sou enquanto estou crescendo? Só serei alguém depois de crescido? E como saberei quando saí do gerúndio (crescendo) e atingi o particípio (crescido)? Como saber se, culturalmente, estamos atrasando este processo? (conforme discutido no segundo artigo).

Neste contexto: necessidade de fazer uma escolha (que marca a entrada para a vida adulta) X sentimento de incapacidade de realizar esta escolha por si só, é possível contar com um apoio precioso: o trabalho de orientação para a escolha profissional. Em relação a este trabalho, tenho vasta experiência, são mais de duas décadas colaborando com rapazes e moças no sentido de construirmos juntos suas possibilidades de ser e de vir a ser. Mas como isso acontece?

Escolher uma profissão é diferente de escolher um emprego, uma ocupação. A escolha de uma profissão faz parte de um processo maior e mais complexo, que é o processo de subjetivação (se tornar um sujeito autônomo, uma pessoa capaz). Mas, mesmo no caso da escolha de uma ocupação, a experiência é subjetiva: o que leva a esta e não àquela ocupação? O que faz com que a identificação aconteça? Sendo assim, o ponto de partida para esta jornada é o movimento de "olhar para dentro", ou seja: conhecer e reconhecer a "pessoa que mora neste corpo", olhar de frente para este personagem que acredito ser Eu. Neste movimento, algumas indagações são cruciais: quem sou eu? Qual é a minha história? Que outras pessoas, grupos e instituições fazem parte de mim, me fizeram ser quem sou? Como eu avalio essa pessoa que eu percebo em mim? Que projeções futuras eu faço para esta pessoa que percebo em mim? Quais atividades Eu considero prazerosas de realizar e, destas, quais podem se tornar profissão para mim?

Junto a este movimento, o movimento de "olhar para fora" e procurar entender como nossa sociedade se constitui, se produz, se constrói e se modifica diante dos desejos e das necessidades de existir. "Olhar para fora", procurando identificar os espaços de atuação profissional mais afins daquela pessoa que encontrei em mim, vendo-me a mim como parte constituinte e atuante deste contexto coletivo.

O trabalho de orientação para a escolha profissional colabora justamente com o "olhar", como no poema de Eduardo Galeano*, no qual o menino Diego, estupefato diante da imensidão e da beleza do mar, pede ao pai para que este o ensine a olhar. Assim como o "pai" deste poema são as teorias, técnicas e atividades que, juntamente com a experiência profissional da orientadora, agem no sentido de colaborar para que este olhar produza imagens significativas para quem olha, imagens e significações que encontrem eco nas dimensões mais profundas do ser que olha, procurando a si mesmo/a.

*Eduardo Galeno, O Livro dos abraços, L&PM, 2002.


Como colaborar com a Geração Millennials?

Por Bia Bressan

Tenho acompanhado, pelo menos, duas gerações de adolescentes ao longo de mais de 20 anos de atuação profissional. Fui estudar Pedagogia sonhando com a Educação Infantil. Durante minha formação conheci a Orientação Educacional e, dentro desta área, a orientação para escolha profissional (antiga orientação vocacional) e, desde então, me encantei com a adolescência, com suas possibilidades, sua explosão, sua alegria. E também com seu lado mais sombrio (digamos), sua angústia, seu desamparo, suas dúvidas e inquietações.

Ao longo de tantos anos, tantos rapazes e moças passaram pela minha vida, tantas histórias pessoais e familiares, tantos olhos e sorrisos, tantos sonhos e tantas frustrações. O que mais me salta aos olhos é quanto nossos valores culturais podem limitar tantos rapazes e moças.

Pensando na biologia humana, em nossas capacidades físicas, intelectuais e motoras, quando chegamos à adolescência, teoricamente, estamos maduros nestes quesitos todos, inclusive na capacidade reprodutiva. Teoricamente (como já ressaltei) somos todos capazes de cuidar de nós mesmos, da casa, do dinheiro, dos outros... De ir e vir, de escolher, de decidir. No entanto, para as gerações mais recentes, os nomeados millennials (nascidos a partir do ano 2000), essas capacidades têm sido adiadas, postas em dúvida, castradas. O que me salta aos olhos é o "resultado" deste processo: vejo uma infância que não termina e que pode produzir uma série de neuroses patológicas, pois, culturalmente, estamos interferindo no desenvolvimento de todo sistema que constitui ser uma pessoa. Em grande medida, incapacitamos um organismo cheio de possibilidades. Mas como? Quando? Fazendo o quê? Vejamos este exemplo.

Incapacito um/a adolescente quando levo e busco para todo lugar que ele/a deseja ou precisa ir. Alguém pode me dizer: e o medo? (de assalto, sequestro, trânsito...). Sem dúvida o medo tem a nobre função de proteção, porém quando ele impede o risco do novo, do aprendizado, de uma possível conquista (e não pensem em nada faraônico!) este medo começa a ser limitador e passa a atrofiar. Nos desenhos da autoimagem de tantos millennials que tive (e tenho) a oportunidade de analisar, lá vejo representado este sentimento de incapacidade, que inconscientemente aparece: na maior parte das vezes, nos braços atrofiados, evidenciando o resultado de uma educação limitadora. Fazendo uma analogia, imaginem se impedíssemos a criança de aprender a andar por medo das quedas que ela sofrerá (e sofrerá!). Este é o sentido de "conquista" que me referi logo acima. A incomensurável conquista de suportar o medo e enfrentar o novo, e encontrar outro Eu em mim.

Sendo assim, podemos pensar sucessivamente: conquistar responsabilidades, valores, posturas e atitudes, relacionamentos, sonhos, desejos, reconhecimento, aceitação. Reconhecimento, atenção para isto: é algo bastante caro aos adolescentes, talvez um dos principais marcos de encontro com seu novo Eu, agora mais próximo da juventude e da vida adulta, que almeja ser aceito num lugar social de maior representatividade. Nascer é sofrimento e crescer não é diferente. Como podemos colaborar?

A resposta parece simples: oferecendo minha presença e suportando junto. É diferente de fazer por, ou de impedir de caminhar. Impedir de suportar o sofrimento atrofia a capacidade de sentir e de elaborar o que se sente. É por isso que vejo rapazes-meninos e meninas-moças que se machucam ou machucam alguém, com gestos, golpes ou palavras. Estão incapacitados: não aprenderam a suportar. E isto gera medo, que gera a raiva, que será destilada em si mesmo/a ou em outra pessoa.

Simbolicamente, o lugar mais apropriado para nós adultos ficarmos é ao lado, nem atrás e muito menos à frente. Ao lado, caminhando juntos e suportando os tropeções, encarando as dores e conhecendo juntos as possibilidades de ser e de vir a ser.

Essa é minha contribuição, do meu saber, para vocês que estão me acompanhando nessa coluna. Contem comigo nessa busca para um Eu autônomo, autêntico e feliz. Sigam as redes sociais, instagram e facebook. 

Nos vemos em breve!


Adolescência ou aborrescência? 

Por Bia Bressan

Por que depois de certa idade parece que os filhos se tornam estranhos para os pais (ou para quem está nesta função)? O que acontece com aquela criança que era tão parecida com seus progenitores ou cuidadores que a faz se tornar quase uma pessoa desconhecida?

Antes de pensarmos nesta "transformação", é importante lembrarmos que a adolescência, assim como todas as conhecidas fases do desenvolvimento humano, são conceitos, são referências de uma normalidade que também é conceitual. Infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice são construções de uma compreensão que se dá com a ajuda de várias áreas do conhecimento: psicologia, medicina, pedagogia, tecnologia, sociologia... Por serem conceitos, nem sempre existiram e são sempre passíveis de mudanças, de ressignificações e novas compreensões.

A noção de adolescência, a percepção de que algo acontece com as pessoas ao final da infância e início da juventude, só foi possível com a ascensão da sociedade burguesa - e estamos falando da segunda metade do século XIX, o que, em tempos históricos, é algo extremamente recente. Até o final deste século e início do próximo (XX) a ideia de adolescência era bastante incipiente e causava mais descrédito do que crença. Afinal, o que aconteceu que fez aparecer algo que não seria possível no contexto anterior? Vamos pensar! 

Em termos gerais, antes da ascensão da burguesia como classe dominante, a sociedade Ocidental (que tem a Europa como referência) vivia a realidade do absolutismo real em termos políticos e do feudalismo em termos econômicos: as dinastias das famílias nobres e sua corte nos palácios e a dominação dos senhores feudais nos campos. A população estava concentrada na zona rural e entrava para o mundo do trabalho na terra muito cedo; a partir dos 6 ou 7 anos de idade a pessoa era considerada homem ou mulher, com responsabilidades de capacidades iguais às de qualquer adulto. O trabalho e a convivência com a família extensa (característica dessa época) suplantavam as necessidades emocionais e as perturbações tão peculiares da adolescência.

A queda das dinastias e a ascensão da sociedade civil trazem outras possibilidades de ser e de existir. A começar, a população passa lentamente a ocupar os espaços urbanos e os postos de trabalho nas indústrias que estão se espalhando; neste movimento, crianças e adolescentes vão sendo afastados do mundo do trabalho, o que possibilita um tempo ocioso maior - sem o trabalho e a convivência, fenômenos que ficavam escondidos pela antiga dinâmica social se tornam mais evidentes. E que fenômenos são esses? A angústia e o desamparo de ser por si. Vamos compreender melhor este processo.

A infância é marcada pelo processo de identificação com as figuras de referência (progenitores ou quem quer que seja que ocupe o papel de cuidador/a). Para que Eu possa ser uma pessoa é preciso que Eu me identifique com pessoas que, por sua vez, me darão as noções de como devo ser, de como devo me comportar nas diferentes situações, de como e com quem devo me relacionar, as escolhas que devo fazer, as instituições que devo frequentar, do que devo gostar, dos sonhos que devo sonhar... (atenção para o verbo "devo" - denota uma imposição social). Quanto mais Eu corresponder a tudo isso sem questionar, menos Eu aborreço!

O que marca o aparecimento da adolescência no sujeito (e isto pode acontecer muito antes ou muito depois da puberdade, que é sua dimensão biológica) é o surgimento da necessidade de ser por Si, pensar por Si, gostar por Si, escolher por Si, independente das figuras de referência ou do que para estas é o que Eu deveria. E quando isto acontece, Eu passo a aborrecer, pois Eu passo a me diferenciar destas figuras. E esta diferenciação está no cabelo que Eu quero cortar ou deixar crescer, nas roupas rasgadas, nos acessórios, nas opiniões dos colegas que passam a fazer mais sentido... Dependendo do Eu e do seu em torno, esta passagem pode acontecer de maneira mais ou menos traumática, mais ou menos conflituosa, mais ou menos angustiante.

Fica para nossa próxima conversa o que e como podemos fazer para participar deste processo de forma construtiva, no sentido de fortalecer este Eu para que se torne uma pessoa autônoma, autêntica e feliz consigo mesma.



Bia Bressan... Você não a conhece? Então está na hora. Se você precisa de uma profissional de alta qualificação para acompanhar, apoiar, colaborar para as escolhas de seu/sua filho/a, ajudar uma amiga, ou orientar você mesma!

Vem, que vamos te contar quem ela é. Professora, Psicanalista e Orientadora Educacional, especialista em adolescentes, especialmente na orientação para escolha profissional.

Mestre pela Universidade Federal de São Carlos tem atuado há muitos anos com a formação de jovens e adultos como professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, além de realizar atendimentos clínicos para desenvolver o potencial humano.