Sessão com a Bia

Parte 2- Decifrando a linguagem do corpo

Por Bia Bressan

            Um conceito importante na linguagem corporal é a noção de zona pessoal, este m2 (mais ou menos) que ocupamos no espaço físico. Para algumas pessoas este espaço pode ser menor que 1m2, enquanto para outras pode chegar a 10m2 (exagerando, claro!). E é fácil saber se estamos invadindo a zona pessoal de alguém: certamente a pessoa dará um passo para trás, buscando se afastar do/a invasor/a. Esta é uma das razões pelas quais ambientes superlotados nos causam sensações desagradáveis (como no caso de elevadores ou transportes públicos). Quando você perceber que invadiu a zona pessoal de alguém, pois a pessoa deu um passo para trás, faça o mesmo: dê você também um passo atrás - isto trará confiança para a pessoa que se sentiu invadida, porque assim você estará espelhando o comportamento dela e criando rapport, ou seja, um clima de confiança e empatia.

A noção de espelhamento também é de suma importância para a linguagem do corpo. Descoberta recente das neurociências, os neurônios-espelho (localizados nos lobos frontais do cérebro - na testa) revelaram a raiz neurológica da nossa capacidade de imitar, na maior parte das vezes, involuntariamente. São estes neurônios que fazem o bebê sorrir (a partir dos dois meses) para quem o sorri; cruzar e descruzar braços e pernas durante uma conversa; projetar ou afastar o tronco; virar os pés para a mesma direção ou em direção à outra pessoa; coçar o nariz, mexer na orelha, limpar os cantos da boca. Da mesma maneira, espelhamos sentimentos e emoções - é o que nos faz chorar ao assistir a um filme triste, por exemplo; numa outra medida, é o que nos permite compreender por empatia (compreender a partir do ponto de vista do outro).

De acordo com Pierre Weil, em sua obra clássica O corpo fala, não é nada aleatória a figura da esfinge do antigo Egito: cabeça de homem, corpo de boi, tórax de leão, asas de águia. Existe uma tradição antiga nesta representação: são partes do físico do homem e também de sua psicologia. Esta correspondência faz sentido até hoje: tórax - leão: vida emocional; abdômen - boi: vida instintiva; cabeça - águia: vida mental/intelectual; homem (ser humano): conjunto, consciência. Considerando esta representação, vamos observar algumas expressões do corpo:

- mãos afagam o peito ao expressar emoções fortes (vejo muito este gesto nas sessões de psicanálise); também levamos a mão ao peito quando dizemos: "na minha opinião..."; a sensação de espanto e de alívio também podem vir acompanhadas de mãos sobre o peito. No peito também está o coração, órgão vital ligado diretamente às emoções: dispara nas situações de medo e ameaça, como também quando aquela pessoa especial chega à festa.

- a região instintiva abrange abdômen e genitália e por isso está associada à fome, tanto do estômago quanto dos genitais. Sendo assim, projetamos o abdômen em direção à comida que está sendo servida, mesmo que a dieta faça a boca dizer "não, obrigado". O desejo genuíno está sendo expresso pelo abdômen projetado, não pela boca censurada. O balançar dos quadris femininos, a mão que vai à cintura numa situação de paquera, os polegares fincados no cinto ou no bolso da calça, muitas vezes com o indicador apontando para baixo (gesto masculino muito comum), revelam a fome e o desejo dos genitais. Também projetamos o abdômen em situações de desinteresse: como aquele aluno esparramado na cadeira, no fundo da sala (se escolheu o fundo, já disse que não pretendia aproximação); ou a pessoa "largada" no sofá da sala. Ao contrário, projetamos o tronco em direção àquilo que interessa: diante da TV, por exemplo, inclino o tronco para frente, arregalo os olhos e apuro os ouvidos para captar a notícia do jornal.

- coçamos a testa quando precisamos decidir algo; também seguramos o queixo nestes momentos de avaliação e decisão - na cabeça está nosso centro mental e intelectual, é também centro de criação, elaboração e compreensão. Puxamos ou enrolamos o cabelo quando precisamos "puxar" ideias; quem não tem cabelo para isto, passa a mão sobre a cabeça várias vezes (como que ativando os pensamentos). Sentimos as situações de pressão na nuca e no pescoço - observe o homem que mexe na gravata ou no colarinho; a moça que mexe o pingente de sua correntinha de um lado para o outro freneticamente.

Acessórios usados no dia a dia participam da emissão das mensagens subliminares da linguagem corporal:

- a bolsa feminina sobre o colo, a almofada que agarro, o fichário que carrego abraçada: proteção do "boi", situações de desconforto, medo, ameaça.

- olhar por cima dos óculos: ameaça (como uma trincheira e o soldado); morder a "perna" dos óculos faz ganhar tempo de resposta numa conversa séria ou discussão;

- mexer no relógio de pulso: ansiedade ou tentativa de imposição da vontade/opinião.

- morder o lápis ou a caneta: tensão (satisfação oral como forma de alívio); bater o lápis sobre a mesa: tentativa de alívio da ansiedade ou do nervosismo (rasgar pedaços de papel ou "destruir" clips também são mensagens de busca de alívio de tensão).

Apure os sentidos, abra seus canais de comunicação. Observe seus gestos e movimentos nas diferentes situações; observe quem está com você. Quantos mal-entendidos, brigas e confusões podem ser evitados quando deciframos estas mensagens subliminares. Comece olhando para dentro de você, identificando e nomeando sentimentos e emoções, captando suas próprias manifestações corporais - é a partir da observação de si mesmo/a que será possível observar e captar o outro. E a partir disso: divirta-se!


Decifrando a linguagem do corpo

Por Bia Bressan

Tenho tocado na questão da subjetividade aqui nesta coluna desde o início (confira o histórico dos temas tratados até agora). Sempre aproveito a oportunidade de ressaltá-la, pois é esta nossa condição enquanto humanos: a singularidade no processo de significação, ou seja: atribuímos significado a tudo que passa pela percepção e, também, a tudo que não passa (o intangível). Atribuir significados: embora contando com referências externas para isto, é sempre da ordem do subjetivo o que cada um de nós faz com estas referências.

Para auxiliar na captura das manifestações subjetivas (minhas e alheias) a linguagem do corpo é uma forte aliada. Emitimos sinais comunicativos a todo instante: 

ora de maneira intencional (gestos de negação ou consentimento, por exemplo), ora inconscientes (aquela coçadinha na ponta do nariz ou atrás da orelha, por exemplo). Observe-se e observe as pessoas próximas a você: certamente existe uma postura corporal predominante - e esta revela características da personalidade - ao passo que, em determinados contextos, surgem gestos, movimentos e posturas que evidenciam os estados emocionais do momento. Decodificar estes sinais não verbais em mim e nas outras pessoas é algo que potencializa todas as relações (familiar, profissional, conjugal, com amigos/as), pois ajuda a perceber e compreender aquilo que não é manifestado expressamente (em gestos, comportamentos ou palavras), mas que está presente e atuando sobre o sujeito (emoções, desejos, necessidades).

Sendo assim, observe as posturas predominantes: a que aponta para baixo (ombros caídos, olhar de baixo para cima, gestos contidos, sorriso "escondido") indica timidez, provavelmente baixa autoestima e baixa autoconfiança. Observo pessoas que possuem os cantos da boca voltados para baixo L mesmo quando sorriem. Esta boca está comunicando uma mágoa profunda, uma "ferida emocional infeccionada". O contrário desta postura - a que aponta pra cima: cabeça erguida, peito e ombros abertos, olhar nos olhos, sorriso largo - sugere boa autoaceitação e autoconfiança. O abraço e o aperto de mãos (gestos de cumprimento) destas duas posturas também são característicos: da primeira: mão frouxa e tentativa de fuga do abraço (expressa, por exemplo, no quadril ou numa das pernas projetados para trás); da segunda: aperto de mãos firme e retilíneo e abraço que faz tocar o abdômen.

Somos seres emocionais (e passionais!). Conforme contextos, momentos e situações emoções afloram, desejos sucumbem, necessidades pulsam e nem sempre é possível expressá-los de maneira genuína; outras vezes esta expressão escapa à vontade consciente de esconder ou disfarçar e encontra a forma subliminar (inconsciente) de aparecer. São gestos e movimentos que fogem à percepção tanto de quem os emite (por serem inconscientes), quanto de quem os deveria receber (por serem extremamente rápidos) e que podem ter diferentes significados (conforme contextos e situações). Um exemplo, a mordidinha leve no lábio inferior: pode aparecer quando a pessoa julga ter dito algo que não deveria ou quando está seduzindo alguém deliberadamente (no sentindo erótico). Gestos de dispersão (de uma leve tensão) são outro exemplo, muito comuns em pessoas tímidas com baixa autoconfiança que se encontram numa situação de exposição (conversa por chamada de vídeo, por exemplo): coçar atrás da orelha ou cutucar uma suposta cutícula. Mãos que se esfregam ou que são levadas à nuca, estão expressando um claro sentimento de nervosismo e tensão.

Gestos indicadores de prováveis mentiras ou de falta de convicção no que está dizendo podem aparecer na dificuldade (momentânea, que seja) de olhar nos olhos (olhar desviante) e também nas mãos que coçam o nariz ou se movem ao redor da boca. Gestos que podem indicar desconfiança de prováveis mentiras: coçar o nariz quando a situação "não cheira bem"; acariciar o lóbulo da orelha quando o que se ouve não inspira confiança (ou soa de maneira desagradável); cruzar os braços e/ou as pernas, num claro sinal de resistência e defesa.

Por ser linguagem (simbólica na essência) seu vocabulário é dinâmico e infinito e o melhor caminho para "dominá-la" (entre aspas, pois ela sempre escapa!) é exercitar a atenção para capturar estes mínimos gestos e expressões, tão ricos de significado emocional. Prefira a compreensão empática ao invés da avaliação e do julgamento: ótimo começo para o aprendizado da linguagem do corpo!

Quer saber mais?

O corpo fala, de Pierre Weil (Editora Vozes) é uma obra clássica sobre linguagem corporal.

Vale a pena conferir!


                                  Carta às figuras anaclíticas 

                              (pessoas que estão no papel de cuidadoras)

Por Bia Bressan

Figuras anaclíticas, objeto anaclítico: conceito fundamental em Psicanálise refere-se às pessoas que cuidam, que dão apoio. Quase sempre são os progenitores (mãe e pai biológicos). Outras pessoas neste papel materno/paterno podem ser tomadas como figuras de cuidado e apoio. A questão é complexa: inconscientemente, elegemos nossos objetos anaclíticos e nem sempre estes são os progenitores ou seus representantes diretos. Tios/as, irmãos e irmãs mais velhos/as, professores/as, vizinhos/as... enfim, podemos tomar qualquer pessoa como referencial de cuidado e apoio. E isto é fundamental para o processo de construção dos sujeitos.

E quem cuida de quem cuida? 

As atenções se voltam sempre para os que inspiram cuidados (bebês, crianças, adolescentes, idosos). Conversas giram em torno de dificuldades, necessidades e possibilidades. Sentimentos de dever e de devoção ao objeto cuidado (objeto?). A exigência de uma fonte inesgotável de energia de quem cuida. O medo de errar. As expectativas, idealizações e projeções em torno do objeto (?) cuidado. Quem ampara quem ampara? Quem orienta quem orienta?

Por isso, desta vez, quero me dirigir a você, figura anaclítica, especialmente você mãe, você pai, ou você que está neste papel social tão importante de cuidado e orientação, de crianças e adolescentes, principalmente. Quais seus sentimentos e necessidades? Seus sonhos, idealizações, medos e fantasias? O que você tem feito para cuidar de você?

Conversando com pessoas de meu convívio, tenho escutado a queixa da falta de orientação para orientar. Percebo uma grande preocupação com a escola e seus conteúdos, um sentimento de falta, de incompletude. Para as figuras anaclíticas de meninos e meninas em fase final da escolarização este ano (formandos do Ensino Médio), as preocupações (e fantasmas) dobram de tamanho e intensidade: o que dizer? O que fazer? Deixar livre? Ou cercar por todos os lados?

Se há alguma orientação diretiva a se fazer neste momento, creio que seja esta: façam juntos, conversem, priorizem o diálogo franco, aberto, sem julgamento. Estamos (todos) passando por um momento de falta de referência para enfrentar um mal comum (o vírus e a pandemia) que afeta nossa vida em todos os sentidos. Os conteúdos escolares, a meu ver, são o menor dos prejuízos: Google® e YouTube® tem conteúdo de sobra para preencher eventuais lacunas (informações, fatos, fórmulas, conceitos...). O que estas plataformas não oferecem é justamente o que realmente precisamos: amparo e acolhimento para as incertezas que nos assolam. Agir no caos e decidir na dúvida: o remédio é o diálogo que permite expressar emoções e representações sem censura.

Observe as manifestações subjetivas (de todos que convivem, inclusive as suas): gostos e preferências, movimentos em busca de referências e respostas, momentos de silêncio e apatia, de empolgação e euforia... Quais fontes estão sendo procuradas em busca de auxílio? O que é possível perceber em termos de dúvidas e convicções? E em termos de expectativas, idealizações e projeções? Conversem, debatam, estudem juntos, pesquisem juntos, falem com pessoas que podem dar alguma informação preciosa; peçam ajuda de profissionais especializados em orientar. Toda e qualquer resposta possível ou caminho projetado, será uma construção coletiva deste e para este minicoletivo (familiar).

A coletividade como figura anaclítica dos objetos anaclíticos: você que cuida, apoia e orienta encontrará cuidado, apoio e orientação no grupo, ao expor e compartilhar suas próprias faltas e necessidades, seus medos, desejos e idealizações. Se não funcionar, se o sentimento de dúvida e desamparo continuar forte, será sempre possível contar com ajuda especializada no sentido de apoiar e fortalecer quem cuida, apoia e orienta. Já que é condição humana e não temos como nos livrar disso, vamos cuidar de cuidar de quem cuida com muito cuidado! 


A Psicanálise e seu papel na atualidade

Por Bia Bressan

Recentemente, depois de uma conversa longa e muito prazerosa com um amigo querido dos velhos tempos, senti a necessidade de escrever sobre a Psicanálise e seu papel na atualidade. A motivação mais forte, que surgiu durante esta conversa, foi ter ouvido dele sérias distorções e reduções sobre o trabalho psicanalítico: segundo seu comentário, a pessoa faz análise e acaba colocando toda culpa sobre os pais e se saindo de vítima. Ao ouvir isto pensei: deve haver uma má compreensão generalizada sobre a Psicanálise e a terapia psicanalítica por aí a fora... E eu posso colaborar para esclarecer estas distorções.

A Psicanálise é uma área da ciência (assim como é a biologia, a química, a história...). Sendo assim, é um campo de estudos: produz teorias que procuram compreender alguma questão. Qual? A dinâmica da psique humana: partir do que é acessível à consciência (palavras proferidas, lapsos de memória, de fala, de escrita, chistes e brincadeiras, sonhos lembrados, sintomas) para atingir o que não está disponível à consciência: sonhos, medos, desejos, emoções escondidas (recalcadas) no inconsciente. A "descoberta" do inconsciente foi a contribuição mais significativa desta ciência no período em que surgiu (final do século XIX), através do trabalho do neurologista Sigmund Freud (considerado o "pai da Psicanálise"), sobre quem recaem uma série de injúrias e informações distorcidas. Por quê? Porque ele tocou num assunto que até hoje é controverso (imagina no século XIX): a sexualidade e o prazer (não só de ordem sexual).

Sendo um campo de estudos, de investigação, a Psicanálise possui um método: a associação livre. A partir do acessível à consciência (palavras ditas, sonhos lembrados, lapsos cometidos) incentivar as associações que a pessoa pode fazer em relação ao conteúdo manifesto; este caminho de associações leva ao inconsciente, aos conteúdos escondidos (recalcados), que assim estão por serem demasiado dolorosos para a consciência, só podendo aparecer de maneira disfarçada (sonhos, sintomas, atos falhos). Este processo configura, também, um método terapêutico: as manifestações e associações levam a compreensão profunda do que está no foco da análise: pessoas, grupos, sentimentos, relacionamentos, sintomas, dificuldades... proporcionando outras compreensões e significações, outras possibilidades de ser e de vir a ser, sem amarras que doem e fazem adoecer. Pensar as emoções, sentimentos e desejos, liberar afetos falando sobre eles, encarar dores e traumas que estão "debaixo do tapete" (recalcados), num ambiente acolhedor, livre de censura e julgamentos, é o caminho que a terapia psicanalítica apresenta como tratamento.

Vivemos uma realidade massacrante, que pouco nos permite olhar para dentro e pensar no que encontramos quando fazemos isto. Temos uma série de deveres: produtividade, assertividade, força, coragem, resiliência. Somos bombardeados de informações, precisamos gerenciar nossa vida real e virtual com destreza e agilidade. E assim passamos pelas diferentes situações: de maneira superficial, sem maiores reflexões e compreensões. A pandemia evidenciou nossa dificuldade: não sabemos lidar com nossas emoções, não aprendemos e, por isso, não ensinamos a pensar sobre o que sentimos. Herdeiros e produtores de uma cultura racional e racionalista, acreditamos que pensar as emoções é sinônimo de fraqueza. O que não é pensado (elaborado) vira "doença": dos pequenos desconfortos diários (dores de cabeça, costas, estômago e erupções na pele) às maiores afecções que nos arrebatam (câncer, doenças autoimunes, distúrbios cerebrais e cardíacos).

Aí está a contribuição da Psicanálise hoje e ao longo da história: permitir soltar o que está preso, pensar o impensado, falar sobre tudo aquilo que a racionalidade insiste em esconder (censurar e recalcar), em parceria com profissionais preparados para fazer uma interlocução acolhedora, sem avaliação e sem julgamento, na busca por respostas e escolhas mais condizentes com o desejo de quem as procura, livres do medo, da vergonha e da culpa. 


A assertividade na infância

Por Bia Bressan

Aproveitando o ensejo - semana da criança - vamos conversar sobre infância. Ao contrário do que muitos pensam a noção de infância nem sempre existiu. Na verdade, considerar a criança um ser diferente do adulto (no sentindo das capacidades cognitiva, motora, perceptiva...) é uma concepção bastante recente e também tem relação com a ascensão do modelo burguês de sociedade que vivemos (desde o século XIX - em termos de tempo histórico, usando de ironia, isto equivale há poucos dias atrás). Então, como era antes?

Durante toda história da humanidade, a partir dos 6 ou 7 anos de idade as pessoas eram consideradas "adultas", ou seja: homens e mulheres prontos para atuar socialmente. Foi nos meados do século XVIII (por volta de 1760) que Jean-Jacques Rousseau (leia-se "Russô"), um intelectual francês, inaugura a concepção de infância: é ele quem afirma que criança não é adulto em miniatura, mas que possui uma série de características peculiares (no sentido das capacidades citadas acima). Quando Rousseau publicou Emílio, ou da educação anunciando suas ideias, houve muitas reações de repúdio à noção da diferença entre adultos e crianças. A evolução do conceito de infância foi um processo lento e gradativo, que ganhou força com a evolução das ciências e a ascensão do modelo capitalista de economia.

O que observamos hoje, quase três séculos depois de Rousseau? Do meu ponto de vista, vejo a super idealização da criança e da infância. A elas são atribuídas características surreais de bondade, meiguice, pureza, felicidade. Para elas despendemos todas nossas energias de cuidado, proteção e amor incondicional. Em muitos momentos, esquecemos que elas necessitam também de limites e de orientações mais diretivas. Diferentes que somos dos "seres da natureza" (especialmente os mamíferos em geral, que são da mesma classe que nós humanos), não nascemos prontos nem preparados (para nada!); tudo é questão de aprendizado para nós (mamar, andar, comer, ser, sentir, se relacionar, se comportar...).

Sendo assim, se o desejo dos adultos-educadores-cuidadores é serem assertivos no trato com o infante, é muito importante lembrar do tripé que leva mais próximo dessa assertividade: cuidados, afetos e limites. Dizer "não" é fortalecedor para quem escuta, pois mostra que seu desejo não é um imperativo; interromper o prazer da brincadeira para tomar banho (por exemplo) ensina a suportar frustrações; orientar a atitude e o comportamento nas diferentes situações colabora para a formação do caráter; respeitar as fases do desenvolvimento, sem ficar atrasando o início ou final delas, na tentativa de prolongar a infância, evita problemas mais graves no futuro (adolescência, juventude e fase adulta), como neuroses e transtornos de ordem emocional.

Por mais incrível que isto pareça, crianças e adolescentes entendem (inconscientemente) a permissividade como indiferença e os limites como cuidado e consideração. A moderação entre os extremos (permitir/proibir) nunca é óbvia, é sempre uma tensão entre estes polos e, em muitos momentos, vamos errar na dose. Costumo dizer: se for exagerar num destes extremos (às vezes, nem sempre), que seja pelo limite e pela disciplina. Assim é possível garantir (pelo menos em parte) o cuidado, o afeto e o fortalecimento do sujeito no seu processo de subjetivação.


A prevalência da subjetividade

Por Bia Bressan

Convido você a desenhar para mim: pegue uma folha de papel (pode ser rascunho), lápis de cor ou giz de cera. Se tiver mais gente por perto, convide também! Desenhe isto que vou descrever: uma flor de cabo verde, miolo amarelo e pétalas vermelhas. Observe o resultado. Se pelo menos mais uma pessoa desenhou junto com você, compare os desenhos. São idênticas? Mesmo se ficaram muito parecidas, são na verdade bem diferentes. Mas por quê? Se vocês usaram o mesmo material e seguiram a mesma instrução? O que estes desenhos revelam?

Podemos usar as flores desenhadas como uma representação de nós pessoas. Enquanto indivíduos pertencentes à mesma espécie, todos temos a mesma estrutura (considerando, claro, o que convencionamos chamar de "normal"): cabeça, tronco e membros; órgãos internos e externos; funções vitais como respiração e circulação sanguínea; todos nós sentimos fome, sede, sono e assim por diante. Na representação, isto corresponde à flor de cabo verde, miolo amarelo e pétalas vermelhas. No entanto, mesmo tão parecidos nesta estrutura, quanta diferença: nas cores, formatos e tamanhos de pele, olhos, estatura, braços, pernas, narizes e bocas; no ritmo da respiração e na pressão arterial; no tempo de descanso que cada um necessita, no volume de água que mata a sede, na quantidade de comida que mata a fome. Da mesma maneira, podemos pensar na nossa estrutura mental e emocional: todos nós possuímos pensamentos, sentimentos, emoções, memória, sonhos, medos e desejos, que podem se combinar e se manifestar de infinitas formas diferentes. Sendo assim, as flores desenhadas revelam (escancaram!) a prevalência da subjetividade, ou seja: a singularidade do ser (indivíduo) e de ser (pessoa). Até podemos ser parecidos (como as flores no formato da velha margarida da infância, por exemplo), mas nunca seremos idênticos: observe o tamanho do desenho, onde ele se localiza na folha, a pressão do lápis sobre o papel, se tem preenchimento ou só contorno... São sutilezas que evidenciam as diferenças individuais; são expressões da subjetividade.

Se assim é, vamos pensar agora na adolescência e nos adolescentes. Podemos representar a primeira (adolescência) com a flor e sua estrutura (aspectos comuns) e os segundos (adolescentes) com os desenhos (aspectos subjetivos). Culturalmente, somos condicionados a perceber (em todos os âmbitos, não só em relação à adolescência) o que é comum, o que é "normal" (estrutura), deixando a subjetividade nas sombras. Procuramos perceber nas pessoas (e em nós mesmos/as) o que devemos ser, gostar, preferir, como devemos nos comportar, atitudes que devemos tomar, escolhas que devemos fazer... E assim, vamos perdendo a capacidade de perceber as sutilezas individuais. Algo que fere "mortalmente" um/a adolescente é compará-lo/a com outro/a pessoa, neste sentido do dever. Para alguém que está no auge do seu processo de subjetivação, isto soa como menosprezo, como desconsideração da sua real pessoa. Podemos agir de maneira diferente? Sem dúvida que sim! Como?

Olhando para além da visão, escutando para além da audição, sentindo para além do concreto. Muito difícil? Questão de treino e atenção. Expressões subjetivas acontecem o tempo todo: nas gírias e expressões verbais que a pessoa usa e passa a usar, nas músicas que gosta de ouvir, nos programas de entretenimento que gosta assistir, nos artistas, intelectuais ou celebridades com os/as quais se identifica, no estilo das roupas e sapatos que prefere vestir, nos acessórios para adornar o corpo (ou na ausência destes), nas opiniões e pontos de vista que coloca, nas necessidades e desejos que expressa... A fórmula: se você é (adolescente), pertence a (determinados grupos sociais), então tem que (ser e se comportar de determinadas maneiras) só pode servir como uma espécie de referência, não como prisão. Vamos sempre nos lembrar que, subjetivamente, algo fazemos com as referências que recebemos: as flores nunca serão idênticas.

Procure perceber a complexidade do ser humano (e de ser humano), de viver e conviver. Procure perceber sua própria complexidade de ser e de ver o mundo, as pessoas e sua história pessoal. É possível fazermos da sensibilidade a retina de nosso olhar e os tímpanos de nossa escuta, à procura das sutilezas individuais e das expressões da subjetividade.


O processo de orientação para escolha profissional de adolescentes e jovens

Por Bia Bressan

Acredito que sempre vou recordar daquela reunião de pais na escola que fiz estágio em São Carlos. Eu ainda era estudante de Pedagogia na UFSCar, tinha que cumprir com o estágio na habilitação que havia escolhido (Orientação Educacional, que, na história das reformulações do curso de Pedagogia, deixou de ser habilitação em nível de graduação e passou a ser especialização, em nível de pós-graduação). Um dos deveres do estágio nesta habilitação era realizar um programa de Orientação Profissional com estudantes do antigo 2 o grau (atualmente Ensino Médio), numa escola da rede pública e, também, numa escola da rede privada. A reunião a que me referi no início aconteceu na escola da rede privada. 

Nesta época eu estagiava junto a uma querida colega de turma (minha irmã acadêmica Barbara Sicardi, hoje professora da UFSCar de Sorocaba). Nesta escola realizamos o estágio com alunos e alunas do 3º ano. Os pais destes alunos e alunas solicitaram uma reunião conosco antes de iniciarmos o processo. Naquela época, grande parte destes pais e mães eram professores das universidades (USP e UFSCar). Como é fácil deduzir, muito preocupados com o encaminhamento dos filhos para o Ensino Superior. A preocupação que os assombrava era como seria possível e factível esta escolha por parte dos filhos: o que faríamos, afinal? Hoje eu percebo como esta curiosidade, misturada a uma enorme pitada de dúvida quanto à eficácia do trabalho de orientação profissional, é recorrente e presente entre as pessoas que não conhecem este trabalho. Vamos conhecê-lo mais de perto.

Conforme discutido no texto anterior, escolher uma profissão faz parte do processo de subjetivação, ou seja: é uma das tantas dimensões que constituem um sujeito. É por isso que o processo se inicia (e é o tempo todo atravessado) com técnicas de autoconhecimento - o objetivo maior deste trabalho é colaborar para que a pessoa faça sua escolha por si mesma, e que leve como "efeito colateral" desta intervenção a capacidade de escolher por si. Para tanto, meu papel enquanto profissional é oferecer "ferramentas" para que este encontro da pessoa com ela mesma aconteça - as técnicas e atividades. Destas é possível extrair dados e informações preciosas quanto à autoimagem, relacionamento com o próprio corpo, com a família, amigos, sonhos, medos e desejos próprios e alheios (que participam da escolha profissional), valores e princípios norteadores e suas fontes de aquisição, projeções futuras (que são da ordem da realização pessoal), dentre outros detalhes substanciais que levam a pessoa a conhecer a si mesma, a enxergar seus atravessamentos (pessoas, grupos e instituições que participam da sua construção enquanto sujeito) e suas atitudes diante do "que a vida faz com você" (como diria o filósofo Jean Paul Sartre).

Num segundo momento, entram as técnicas e atividades voltadas para a identificação de atividades e setores de atuação profissional: em que contexto esta pessoa se reconhece atuando como profissional? Sendo assim, o "resultado" mais provável do processo de orientação profissional é perceber com maior clareza a área de atuação com a qual a pessoa se identifica (se vê, se reconhece, sente que há eco dentro de si, ressoa). Dentro desta área, certamente a pessoa encontrará várias possibilidades: de início de formação, de continuidade desta formação, de aproximação e associação  de saberes e disciplinas, de campos de atuação e progressão na carreira... Nosso sistema educacional, em relação ao Ensino Médio, prima (ainda) pela educação propedêutica, esta que oferece uma quantidade imensa de conteúdos que deverão ser reproduzidos em provas seletivas. Neste processo de orientação profissional, quando a pessoa percebe a amplitude que esses saberes podem atingir, fica difícil esconder a sensação de estar surpreso/a e maravilhado/a com as possibilidades. Mais ainda com a constatação de que essas possibilidades são dinâmicas e cambiáveis. No contexto do mercado de trabalho atual e, também, na postura e atitude das gerações atuais, é muito mais real a alternância de postos e cenários de atuação profissional do que a permanência longeva num mesmo lugar, realizando repetidamente as mesmas tarefas. Daí a surpresa e admiração dos jovens e adolescentes, pois se reconhecem nesta realidade dinâmica.

Auxiliar a pessoa a ter clareza dos caminhos possíveis em determinado momento de sua vida é a função do/a orientador/a profissional de adolescentes e jovens. Esta lição aprendi muito cedo com Dulce Helena Penna Soares, uma das autoras de referência para este trabalho. Clareza na escolha percebida dentro de um espectro de possibilidades (área de interesse), o que permite traçar planos para a realização desta escolha, adequando os desejos aos custos e ao tempo. Pode acontecer da pessoa decidir dar início a sua formação por um caminho, se estruturar como profissional e, mais tarde, dar sequência a sua carreira seguindo o caminho realmente desejado.

Como foi o caso de uma adolescente que passou pelo processo de orientação comigo: seu desejo é a formação e atuação como diplomata; isto, no entanto, demanda custos que ultrapassam as possiblidades atuais; sendo assim, ela traçou um plano: decidiu fazer Pedagogia e começar a trabalhar para juntar fundos que poderão custear a realização do seu sonho. Perceba como ela está transitando dentro da mesma área de interesse (ciências humanas), construindo sua carreira de forma dinâmica e autêntica, fazendo escolhas por si mesma e conformando estas escolhas à realidade objetiva da família. Este é um clássico exemplo de "resultado" deste trabalho: aumentar a confiança e a segurança da pessoa em fazer escolhas de forma consciente, de acordo com suas possibilidades reais de execução e sentindo estas escolhas ressoarem no seu interior, se identificando e se reconhecendo no caminho traçado.


O que você quer ser quando crescer?

Adolescência e escolha profissional

Por Bia Bressan

Neste tempo histórico em que vivemos (que uns chamam de pós-modernidade, outros de modernidade líquida, outros ainda de contemporaneidade), um dos marcos importantes na vida de uma pessoa é, sem dúvida, sua inserção produtiva na vida social. Marco, este, localizado na fase que convencionamos chamar de adolescência (como foi visto no primeiro artigo). Vem daí, da inserção produtiva na vida social, a fatídica pergunta que, acredito eu, todos os pertencentes à classe média trabalhadora, médio-intelectualizada, desde muito criança sempre ouviu: o que você quer ser quando crescer?

Embutida nesta pergunta há outro questionamento: então nada sou enquanto estou crescendo? Só serei alguém depois de crescido? E como saberei quando saí do gerúndio (crescendo) e atingi o particípio (crescido)? Como saber se, culturalmente, estamos atrasando este processo? (conforme discutido no segundo artigo).

Neste contexto: necessidade de fazer uma escolha (que marca a entrada para a vida adulta) X sentimento de incapacidade de realizar esta escolha por si só, é possível contar com um apoio precioso: o trabalho de orientação para a escolha profissional. Em relação a este trabalho, tenho vasta experiência, são mais de duas décadas colaborando com rapazes e moças no sentido de construirmos juntos suas possibilidades de ser e de vir a ser. Mas como isso acontece?

Escolher uma profissão é diferente de escolher um emprego, uma ocupação. A escolha de uma profissão faz parte de um processo maior e mais complexo, que é o processo de subjetivação (se tornar um sujeito autônomo, uma pessoa capaz). Mas, mesmo no caso da escolha de uma ocupação, a experiência é subjetiva: o que leva a esta e não àquela ocupação? O que faz com que a identificação aconteça? Sendo assim, o ponto de partida para esta jornada é o movimento de "olhar para dentro", ou seja: conhecer e reconhecer a "pessoa que mora neste corpo", olhar de frente para este personagem que acredito ser Eu. Neste movimento, algumas indagações são cruciais: quem sou eu? Qual é a minha história? Que outras pessoas, grupos e instituições fazem parte de mim, me fizeram ser quem sou? Como eu avalio essa pessoa que eu percebo em mim? Que projeções futuras eu faço para esta pessoa que percebo em mim? Quais atividades Eu considero prazerosas de realizar e, destas, quais podem se tornar profissão para mim?

Junto a este movimento, o movimento de "olhar para fora" e procurar entender como nossa sociedade se constitui, se produz, se constrói e se modifica diante dos desejos e das necessidades de existir. "Olhar para fora", procurando identificar os espaços de atuação profissional mais afins daquela pessoa que encontrei em mim, vendo-me a mim como parte constituinte e atuante deste contexto coletivo.

O trabalho de orientação para a escolha profissional colabora justamente com o "olhar", como no poema de Eduardo Galeano*, no qual o menino Diego, estupefato diante da imensidão e da beleza do mar, pede ao pai para que este o ensine a olhar. Assim como o "pai" deste poema são as teorias, técnicas e atividades que, juntamente com a experiência profissional da orientadora, agem no sentido de colaborar para que este olhar produza imagens significativas para quem olha, imagens e significações que encontrem eco nas dimensões mais profundas do ser que olha, procurando a si mesmo/a.

*Eduardo Galeno, O Livro dos abraços, L&PM, 2002.


Como colaborar com a Geração Millennials?

Por Bia Bressan

Tenho acompanhado, pelo menos, duas gerações de adolescentes ao longo de mais de 20 anos de atuação profissional. Fui estudar Pedagogia sonhando com a Educação Infantil. Durante minha formação conheci a Orientação Educacional e, dentro desta área, a orientação para escolha profissional (antiga orientação vocacional) e, desde então, me encantei com a adolescência, com suas possibilidades, sua explosão, sua alegria. E também com seu lado mais sombrio (digamos), sua angústia, seu desamparo, suas dúvidas e inquietações.

Ao longo de tantos anos, tantos rapazes e moças passaram pela minha vida, tantas histórias pessoais e familiares, tantos olhos e sorrisos, tantos sonhos e tantas frustrações. O que mais me salta aos olhos é quanto nossos valores culturais podem limitar tantos rapazes e moças.

Pensando na biologia humana, em nossas capacidades físicas, intelectuais e motoras, quando chegamos à adolescência, teoricamente, estamos maduros nestes quesitos todos, inclusive na capacidade reprodutiva. Teoricamente (como já ressaltei) somos todos capazes de cuidar de nós mesmos, da casa, do dinheiro, dos outros... De ir e vir, de escolher, de decidir. No entanto, para as gerações mais recentes, os nomeados millennials (nascidos a partir do ano 2000), essas capacidades têm sido adiadas, postas em dúvida, castradas. O que me salta aos olhos é o "resultado" deste processo: vejo uma infância que não termina e que pode produzir uma série de neuroses patológicas, pois, culturalmente, estamos interferindo no desenvolvimento de todo sistema que constitui ser uma pessoa. Em grande medida, incapacitamos um organismo cheio de possibilidades. Mas como? Quando? Fazendo o quê? Vejamos este exemplo.

Incapacito um/a adolescente quando levo e busco para todo lugar que ele/a deseja ou precisa ir. Alguém pode me dizer: e o medo? (de assalto, sequestro, trânsito...). Sem dúvida o medo tem a nobre função de proteção, porém quando ele impede o risco do novo, do aprendizado, de uma possível conquista (e não pensem em nada faraônico!) este medo começa a ser limitador e passa a atrofiar. Nos desenhos da autoimagem de tantos millennials que tive (e tenho) a oportunidade de analisar, lá vejo representado este sentimento de incapacidade, que inconscientemente aparece: na maior parte das vezes, nos braços atrofiados, evidenciando o resultado de uma educação limitadora. Fazendo uma analogia, imaginem se impedíssemos a criança de aprender a andar por medo das quedas que ela sofrerá (e sofrerá!). Este é o sentido de "conquista" que me referi logo acima. A incomensurável conquista de suportar o medo e enfrentar o novo, e encontrar outro Eu em mim.

Sendo assim, podemos pensar sucessivamente: conquistar responsabilidades, valores, posturas e atitudes, relacionamentos, sonhos, desejos, reconhecimento, aceitação. Reconhecimento, atenção para isto: é algo bastante caro aos adolescentes, talvez um dos principais marcos de encontro com seu novo Eu, agora mais próximo da juventude e da vida adulta, que almeja ser aceito num lugar social de maior representatividade. Nascer é sofrimento e crescer não é diferente. Como podemos colaborar?

A resposta parece simples: oferecendo minha presença e suportando junto. É diferente de fazer por, ou de impedir de caminhar. Impedir de suportar o sofrimento atrofia a capacidade de sentir e de elaborar o que se sente. É por isso que vejo rapazes-meninos e meninas-moças que se machucam ou machucam alguém, com gestos, golpes ou palavras. Estão incapacitados: não aprenderam a suportar. E isto gera medo, que gera a raiva, que será destilada em si mesmo/a ou em outra pessoa.

Simbolicamente, o lugar mais apropriado para nós adultos ficarmos é ao lado, nem atrás e muito menos à frente. Ao lado, caminhando juntos e suportando os tropeções, encarando as dores e conhecendo juntos as possibilidades de ser e de vir a ser.

Essa é minha contribuição, do meu saber, para vocês que estão me acompanhando nessa coluna. Contem comigo nessa busca para um Eu autônomo, autêntico e feliz. Sigam as redes sociais, instagram e facebook. 

Nos vemos em breve!


Adolescência ou aborrescência? 

Por Bia Bressan

Por que depois de certa idade parece que os filhos se tornam estranhos para os pais (ou para quem está nesta função)? O que acontece com aquela criança que era tão parecida com seus progenitores ou cuidadores que a faz se tornar quase uma pessoa desconhecida?

Antes de pensarmos nesta "transformação", é importante lembrarmos que a adolescência, assim como todas as conhecidas fases do desenvolvimento humano, são conceitos, são referências de uma normalidade que também é conceitual. Infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice são construções de uma compreensão que se dá com a ajuda de várias áreas do conhecimento: psicologia, medicina, pedagogia, tecnologia, sociologia... Por serem conceitos, nem sempre existiram e são sempre passíveis de mudanças, de ressignificações e novas compreensões.

A noção de adolescência, a percepção de que algo acontece com as pessoas ao final da infância e início da juventude, só foi possível com a ascensão da sociedade burguesa - e estamos falando da segunda metade do século XIX, o que, em tempos históricos, é algo extremamente recente. Até o final deste século e início do próximo (XX) a ideia de adolescência era bastante incipiente e causava mais descrédito do que crença. Afinal, o que aconteceu que fez aparecer algo que não seria possível no contexto anterior? Vamos pensar! 

Em termos gerais, antes da ascensão da burguesia como classe dominante, a sociedade Ocidental (que tem a Europa como referência) vivia a realidade do absolutismo real em termos políticos e do feudalismo em termos econômicos: as dinastias das famílias nobres e sua corte nos palácios e a dominação dos senhores feudais nos campos. A população estava concentrada na zona rural e entrava para o mundo do trabalho na terra muito cedo; a partir dos 6 ou 7 anos de idade a pessoa era considerada homem ou mulher, com responsabilidades de capacidades iguais às de qualquer adulto. O trabalho e a convivência com a família extensa (característica dessa época) suplantavam as necessidades emocionais e as perturbações tão peculiares da adolescência.

A queda das dinastias e a ascensão da sociedade civil trazem outras possibilidades de ser e de existir. A começar, a população passa lentamente a ocupar os espaços urbanos e os postos de trabalho nas indústrias que estão se espalhando; neste movimento, crianças e adolescentes vão sendo afastados do mundo do trabalho, o que possibilita um tempo ocioso maior - sem o trabalho e a convivência, fenômenos que ficavam escondidos pela antiga dinâmica social se tornam mais evidentes. E que fenômenos são esses? A angústia e o desamparo de ser por si. Vamos compreender melhor este processo.

A infância é marcada pelo processo de identificação com as figuras de referência (progenitores ou quem quer que seja que ocupe o papel de cuidador/a). Para que Eu possa ser uma pessoa é preciso que Eu me identifique com pessoas que, por sua vez, me darão as noções de como devo ser, de como devo me comportar nas diferentes situações, de como e com quem devo me relacionar, as escolhas que devo fazer, as instituições que devo frequentar, do que devo gostar, dos sonhos que devo sonhar... (atenção para o verbo "devo" - denota uma imposição social). Quanto mais Eu corresponder a tudo isso sem questionar, menos Eu aborreço!

O que marca o aparecimento da adolescência no sujeito (e isto pode acontecer muito antes ou muito depois da puberdade, que é sua dimensão biológica) é o surgimento da necessidade de ser por Si, pensar por Si, gostar por Si, escolher por Si, independente das figuras de referência ou do que para estas é o que Eu deveria. E quando isto acontece, Eu passo a aborrecer, pois Eu passo a me diferenciar destas figuras. E esta diferenciação está no cabelo que Eu quero cortar ou deixar crescer, nas roupas rasgadas, nos acessórios, nas opiniões dos colegas que passam a fazer mais sentido... Dependendo do Eu e do seu em torno, esta passagem pode acontecer de maneira mais ou menos traumática, mais ou menos conflituosa, mais ou menos angustiante.

Fica para nossa próxima conversa o que e como podemos fazer para participar deste processo de forma construtiva, no sentido de fortalecer este Eu para que se torne uma pessoa autônoma, autêntica e feliz consigo mesma.



Bia Bressan... Você não a conhece? Então está na hora. Se você precisa de uma profissional de alta qualificação para acompanhar, apoiar, colaborar para as escolhas de seu/sua filho/a, ajudar uma amiga, ou orientar você mesma!

Vem, que vamos te contar quem ela é. Professora, Psicanalista e Orientadora Educacional, especialista em adolescentes, especialmente na orientação para escolha profissional.

Mestre pela Universidade Federal de São Carlos tem atuado há muitos anos com a formação de jovens e adultos como professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, além de realizar atendimentos clínicos para desenvolver o potencial humano.